Acessibilidade e Usabilidade

 

Autora: Simone Bacellar Leal Ferreira

 

 

Introdução

Interação Humano Computador (IHC) é uma disciplina multidisciplinar que envolve as áreas de Ciência da Computação, Psicologia, Design, Linguística, Ergonomia, Sociologia, Antropologia  etc. O objetivo de IHC é compreender como as pessoas interagem com computadores estudando-se para isso as formas,  meios e processos envolvidos no uso de sistemas computacionais em Computadores e demais artefatos como equipamentos eletrônicos, automóveis,  prédios, roupas, etc.

Interação é processo de ações e reações, realizado através de interfaces de sistemas ou artefatos computacionais, associado a intenções e disposições dos usuários, por um lado, e à lógica programada no sistema ou artefato, por outro.

Por constituírem um veículo de comunicação com a Internet, através do qual uma variedade de informação é transmitida a pessoas espalhadas por diversas regiões do mundo, as interfaces com o usuário devem possibilitar o acesso de qualquer pessoa, independentemente de suas capacidades físico-motoras e perceptivas, culturais e sociais. Ou seja, devem ser projetadas em conformidade com as diretrizes de acessibilidade e com foco na usabilidade. 

A interface é uma comunicação do designer para o usuário, logo ela deve comunicar a seus usuários suas intenções de design e a lógica que determina seu comportamento. Para isso, deve-se dar especial atenção aos processos de processos de desenvolvimento e avaliações de interfaces, de modo a analisar se seus requisitos satisfazem aos critérios de qualidade, inclusive seu caráter “comunicável” e “amigável” e “acessível”.

A comunicabilidade é a propriedade de: expressar bem a intenção e a lógica de design dos produtores do sistema; permitir ao usuário expressar bem a sua intenção de uso e responder às expressões do usuário com comunicações úteis e adequadas ao contexto de uso. Usabilidade é o termo relacionado à facilidade de uso de um produto; já acessibilidade refere-se possibilidade de qualquer pessoa conseguir usar ou acessar esse produto. Um problema que afeta um perfil específico de usuários é tipicamente um problema de acessibilidade; já um problema que afeta uma variedade ampla de pessoas, é um problema de usabilidade.

Obter interfaces que atendam a muitos usuários não é trivial, uma vez que existe uma diversidade de pessoas com expectativas e necessidades distintas. Para orientar os projetistas na elaboração de sistemas acessíveis existem recomendações e diretrizes com orientações sobre como os sistemas acessíveis devem ser projetados. No caso de sistemas já existentes, é necessário que as interfaces tenham sua acessibilidade verificada. Para isso, foram desenvolvidos programas para avaliar, de forma automática, o nível de acessibilidade dos sites.

Mas o processo de acessibilização de sites não prevê apenas que se valide uma interface de forma automática; é necessário também que seja feita uma validação com humanos, tanto com a participação de especialistas como com usuários com limitações. Logo, para se obter um site de acesso universal orientado à usabilidade, é fundamental observar e analisar as dificuldades e habilidades dos diversos perfis usuários com limitações e sem, pois estas norteiam o modelo mental usado ao longo de suas interações com o sistema. Essa avaliação viabiliza o alinhamento dos requisitos de usabilidade com as diretrizes de acessibilidade de forma a tornar a interação harmoniosa e, ao mesmo tempo, garantir conteúdo compreensível e navegável.

Apesar de indubitavelmente importante, a acessibilidade digital e na Web não é tão simples. Os deficientes possuem limitações sensoriais e motoras que precisam ser compensadas de alguma forma para que possam ter acesso aos recursos computacionais, e para isso as organizações necessitam adaptar seus hardwares e softwares. Como essa adaptação requer conhecimento técnico e pessoal especializado, muitas vezes as organizações não dedicam os esforços necessários ao processo de acessibilização.

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Acessibilidade e Usabilidade

Usabilidade é a característica que determina se o manuseio de um produto é fácil e rapidamente aprendido, dificilmente esquecido, não provoca erros operacionais, satisfaz seus usuários, e eficientemente resolve as tarefas para as quais ele foi projetado. Já acessibilidade, termo relacionado a acesso para todos, é a possibilidade de qualquer pessoa, independente de suas capacidades físico-motoras e perceptivas, culturais e sociais, usufruir os benefícios de uma vida em sociedade, ou seja, de participar de todas as atividades, até as que incluem o uso de produtos, serviços e informação, entre eles a Internet, com o mínimo possível de restrições; essa definição, proposta inclusive pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), apesar de muito rigorosa é fundamental, pois a acessibilidade só existe de fato quando “todos” conseguem acesso a esses benefícios.

A acessibilidade digital é mais específica e refere-se ao acesso a qualquer recurso da Tecnologia da Informação. A expressão acessibilidade na Internet é usada, de forma ampla, para definir o acesso universal a todos os componentes da rede mundial de computadores, como chats, e-mail etc. Já a designação acessibilidade na Web, ou e-acessibilidade, refere-se especificamente ao componente Web, que é um conjunto de páginas escritas na linguagem HTML e interligadas por links de hipertexto. A acessibilidade na Web representa para o usuário o direito de ter acesso à rede de informações e de eliminar barreiras arquitetônicas, de disponibilidade de comunicação, de acesso físico, de equipamentos e programas adequados, de conteúdo e apresentação da informação em formatos.

Com relação à acessibilidade de sistemas de informação computadorizados, tais como páginas na Web, existem quatro situações com as quais os usuários com limitações podem se deparar: dificuldades na utilização do mouse, dificuldades na utilização do teclado, dificuldades na visualização do monitor e dificuldades na obtenção de sons de dispositivos de áudio.
Pessoas com limitações são aquelas que apresentam, em comparação com a maioria da população, algum tipo de barreira nas atividades básicas do dia-a-dia, tais como limitações relacionadas à locomoção, à visão, à audição e à comunicação.

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Concepção para a Acessibilidade na Web

No final dos anos 90, começaram a surgir estudos de âmbito tanto internacional como nacional para promover a acessibilidade na Internet e em aplicativos Web. Surgiram leis em diversos países, inclusive no Brasil, determinando que todo conteúdo eletrônico fosse oferecido em formato acessível para pessoas com limitações ou pessoas que acessam em condições peculiares de uso, como baixa conexão. Essas leis têm como objetivo eliminar barreiras de acesso a qualquer pessoa e encorajar o desenvolvimento de tecnologias acessíveis, assim como de soluções adaptáveis para tecnologias não-acessíveis. 

Em 1997, o Canadá, os Estados Unidos e a Austrália iniciaram os primeiros trabalhos sobre acessibilidade na Web. Em 1998, entrou em vigor nos Estados Unidos a Section 508, lei que determinou que todo conteúdo eletrônico de órgãos federais tem que passar a ser oferecido em formato acessível às pessoas com limitações. O objetivo dessa lei era eliminar todo impedimento de acesso às pessoas com alguma limitação e incentivar o desenvolvimento de tecnologias acessíveis, assim como de soluções adaptáveis para tecnologias não-acessíveis.

Com o objetivo de tornar a Web acessível a todos, o W3C (World Wide Web Consortium, comitê internacional que regula os assuntos ligados à Internet) criou, em 1999, a WAI (Web Accessibility Initiative), formado por grupos de trabalho voltados para a elaboração de diretrizes ligadas à garantia da acessibilidade do conteúdo da Web a pessoas com limitações e a pessoas que acessam a rede em condições especiais de ambiente, equipamento, navegador e outras ferramentas.

Os membros do W3C/WAI elaboraram o “Estatuto de Recomendação do W3C” (WCAG 1.0), a primeira versão das Diretrizes para Acessibilidade do Conteúdo da Web, lançada em maio de 1999. A segunda versão (WCAG 2.0) foi lançada no dia 11 de dezembro de 2008. 

Ainda em 1999, o governo de Portugal, motivado pela primeira petição eletrônica apresentada a um parlamento (com 9 mil assinaturas), definiu regras de acessibilidade e tornou-se, assim, o primeiro país europeu e o quarto no mundo a legislar sobre acessibilidade na Web. Em junho de 2000, o Conselho Europeu aprovou o plano de ação “e-Europe 2002”, estendendo a iniciativa portuguesa para os quinze países da União Européia.

No Brasil, a acessibilidade só começou a fazer parte das políticas públicas a partir do ano 2000, com a promulgação das Leis Federais n.º 10.048 e n.º 10.098. Em dezembro de 2004, foi assinado, no Brasil, o Decreto n.º 5.296, regulamentando leis anteriores e estabelecendo um prazo inicial de doze meses para que todos os sites da administração pública passassem por um processo de acessibilização de modo a garantir a pessoas com limitações pleno acesso às informações; esse prazo foi depois prorrogado por mais doze meses. A fim de viabilizar a implantação desse decreto, criou-se um Comitê da ABNT (Comitê CB-40) incumbido de comparar as normas de acessibilidade de vários países e analisar as diretrizes propostas pelo W3C. Como resultado, desenvolveu-se o Modelo de Acessibilidade Brasileiro (e-MAG), elaborado pelo Departamento de Governo Eletrônico com o propósito de facilitar e padronizar o processo de acessibilização dos sites.

Em 9 de julho de 2008 foi publicado no Diário Oficial da União o Decreto Legislativo n.º 186 que ratifica o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência assinado em Nova York, em 30 de março de 2007. Com esse Decreto torna-se obrigatório que todos os sites eletrônicos de administração pública ou privada tenham que ser acessíveis a pessoas com deficiência.

Mas a obtenção da acessibilidade digital não é simples; requer que as organizações adaptem suas instalações, seus serviços e seus sistemas de informações para obter a certificação de acessibilidade. Assim, surge um novo desafio: administrar e projetar sites em conformidade com as diretrizes para a acessibilidade e, ao mesmo tempo, orientados à usabilidade, fáceis de usar e atraentes. Logo, é importante que se dê atenção aos estudos que visam promover o acesso universal aos recursos tecnológicos.

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Acessibilidade na Web e o impacto no Cotidiano das Pessoas com Limitações

O componente Web desempenha papel fundamental no avanço que a Internet representa no cotidiano de pessoas com limitações e facilita a vida dessas pessoas, possibilitando que elas criem novas formas de relacionamento e desempenhem atividades antes inviáveis. Por exemplo, a Web modificou a vida dos deficientes visuais, pois lhes proporcionou uma liberdade jamais imaginada. Antes da Internet, os cegos só podiam ler livros, jornais e revistas com a ajuda de um ledor (pessoa que lê para cegos). Com o avanço dos recursos digitais, tais como os programas leitores de tela, o deficiente visual conquistou a liberdade de fazer suas leituras sozinho e a qualquer momento.

Deve-se enfatizar que a acessibilidade na Web é a possibilidade de qualquer pessoa, independente de suas capacidades físico-motoras e perceptivas, culturais e sociais, ter acesso aos seus recursos. Em outras palavras, não se trata apenas de acesso por deficientes; é preciso levar em conta, no desenvolvimento de páginas na Web, as diversas situações e características que o usuário pode apresentar. Mas como a Web modificou muito a vida das pessoas com limitações, em geral a acessibilidade para esse perfil de usuários acaba sendo a mais estudada.

Tecnologias Assistivas

Pessoas com limitações, muitas vezes para interagir com os sistemas, necessitam de uma tecnologia assistiva capaz de captar as interfaces e torná-las acessíveis. Tecnologia assistiva é o termo para identificar qualquer ferramenta (como uma bengala), ou um recurso (como um treinamento em Braille), que proporcione ou amplie as habilidades funcionais das pessoas com alguma deficiência e assim promova maior autonomia. No caso de uma pessoa com deficiência visual, acentuada ou total, seu acesso à internet é feito de um programa leitor de tela (screen readers), aplicativos associados a programas sintetizadores de voz. 

Mas não importa quão bem projetada seja a interface, ela não estará de acordo com o modelo conceitual dessas pessoas ela constituirá uma barreira para eles. Além disso, o acesso desses usuários também depende das características das tecnologias assistivas. Assim, as interfaces devem ser projetadas de modo que, quando acessadas por tecnologias assistivas, forneçam interações fáceis, capazes de serem detectadas e corretamente interpretadas. Logo, além da necessidade de adaptação dos recursos computacionais, as interfaces devem ser projetadas e avaliadas também com foco nos usuários com diversos tipos de limitações.

Um dos exemplos de tecnologia assistiva mais comum é o leitor de tela. O usuário que enxerga, ao acessar uma página na Web, usa um navegador, ou seja, um software que lê e interpreta o código HTML e o exibe formatado para o usuário. Já o acesso de uma pessoa que tem deficiência visual, acentuada ou total, à informação na Internet exige uma tecnologia de apoio, que consiste em softwares denominados “programas leitores de tela” (screen readers) associados a outros programas chamados de “sintetizadores de voz”. Os programas leitores de tela captam e interpretam o código relacionado à informação exibida na tela do computador e, por meio dos sintetizadores de voz, disponibilizam a informação em forma de som. Esses programas começaram a surgir no Brasil em 1994. Hoje se utilizam, para o ambiente Windows, o Dosvox/Webvox (desenvolvido pelo NCE da UFRJ e distribuído gratuitamente), o Virtual Vision (desenvolvido pela empresa Micropower) e o Jaws for Windows (desenvolvido pela empresa Freedom Scientific). Há também leitores para os ambientes Linux e Unix, como o Emacspeak e o Gnopernicus, suporte pré-instalado a pessoas que têm deficiência visual aguda ou total na versão 10.4 de seu sistema operacional.

Outro exemplo de leitor de telas, que vem ganhando popularidade é o NVDA, lançado em 2007, pelo australiano Michael Curran. O NVDA possui código-fonte aberto, gratuito e distribuído como software livre utilizando a licença pública geral versão 2, que permite o compartilhamento e alteração do código-fonte. Além da versão para instalação no computador, o NVDA tem a vantagem de possuir a mesma versão pronta para ser executada diretamente através de pendrive. Entre suas características encontram-se: sintetizador de voz gratuito e de código aberto, chamado eSpeak, uso de bips para comunicar ao usuário que barra de progresso está se movendo entre outras.

Observação: O teclado é capaz de ser usado por qualquer cego devido a uma norma internacional de datilografia: todos teclados produzidos em conformidade com as normas técnicas possuem nas teclas “J” e “F” e “5” (no lado numérico), um alto relevo que funciona como guia para o cego posicionar as mãos, assim como para um datilógrafo

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Avaliação de Interfaces

A avaliação de interfaces, que permite que detectem problemas de usabilidade e acessibilidade do sistema, consiste de um processo sistemático de coleta de dados com a finalidade de analisar como os usuários usam um artefato para executarem suas tarefas em algum ambiente computacional. Entre seus principais objetivos destacam-se: avaliar a qualidade de um projeto de interface, identificar possíveis problemas de interação, verificar conformidade a padrões entre outros.

Quando os métodos de avaliação de uma interface são feitos com a presença de usuários, recebem o nome de “métodos de observação ou testes com os usuários”; quando os usuários não são envolvidos, têm-se os “métodos de inspeção ou métodos analíticos ou prognósticos”. 
Entre os métodos de avaliação de acessibilidade encontram-se os que verificam a aderência do site às diretrizes de acessibilidade através de programas avaliadores automáticos; esses avaliadores detectam o código HTML e fazem uma análise do seu conteúdo, verificando se está ou não dentro do conjunto das regras estabelecidas; no final, geram relatórios com a lista dos problemas que devem ser corrigidos para que o site seja considerado acessível. 

Com base nas recomendações do W3C/WAI, foram desenvolvidos programas para avaliar o nível de acessibilidade dos sites. Esses programas detectam o código HTML e analisam seu conteúdo, verificando se está ou não em acordo com o conjunto das regras estabelecidas; no final, geram relatórios com uma lista dos problemas encontrados, que devem ser corrigidos para que o site possa ser considerado acessível.
Entre esses softwares, destacam-se: WebXact (popularmente conhecido como Bobby, seu antigo nome, desenvolvido pela empresa Watchfire Corporation), o Lift (desenvolvido pela empresa Usablenet), o Hera (um dos avaliadores que apresentam maior conformidade com os padrões Web) e o Cynthia Says (desenvolvido pela empresa HiSoftware). O WebXact deixou de estar disponível ao público no dia 1.º de fevereiro de 2008, pois a IBM comprou o validador. Agora ele faz parte do portfólio de soluções IBM da família “IBM Rational Policy Tester Accessibility Edition solution”.

No Brasil, criou-se o programa daSilva, que avalia os sites de acordo com as regras de acessibilidade estabelecidas tanto pelo WCAG como pelo e-MAG. Esse software foi desenvolvido pela Acessibilidade Brasil, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), com registro no Ministério da Justiça, que tem por missão desenvolver estudos que visem à inserção social e econômica das pessoas portadoras de deficiência.

Existe também, no Brasil, o ASES desenvolvido pela “Acessibilidade Brasil”, em parceria com o Governo Eletrônico. Esse software também avalia a acessibilidade de sites, mas com a vantagem de rodar no computador do usuário, podendo assim apresentar mais recursos. Entre esses recursos pode-se citar o simulador de baixa visão e a possibilidade de se avaliar várias páginas.

Uma vez aprovado pelo programa avaliador, o site recebe, conforme orientação normativa, um selo de certificação que indica o nível de acessibilidade alcançado. 

Mas tanto o WCAG como o e-MAG determinam que a acessibilização de sites, não se limite à uma validação automática. É necessário que sejam feitos testes com humanos, tanto com especialistas como com usuários com limitações. A avaliação automática permite checar a aderência às diretrizes, mas não identifica problemas de usabilidade com foco em acessibilidade de grupos específicos de pessoas. Consideram-se problemas de usabilidade quaisquer características observadas capazes de retardar, prejudicar ou inviabilizar uma tarefa.

Com relação à acessibilidade, os problemas de usabilidade, em geral ocorrem por três motivos: (a) muito foco na conformidade com as diretrizes de acessibilidade e não na usabilidade; (b) muitos avaliadores de acessibilidade dependem somente das técnicas de verificação sintática dos sites, com isso, os erros detectáveis se limitam à camada de descrição de tags (etiquetas) e não consideram aspectos de usabilidade; (c) profissionais avaliadores de acessibilidade desconsideram o fato que raramente os usuários escutam a saída falada de forma passiva; eles se movimentam pelas páginas usando combinações de teclas e através desse processo, criam seus modelos mentais.

Métodos de Observação com Usuários

Durante a avaliação da interface é importante envolver o usuário, uma vez que o processo de produção de softwares depende do fator humano. Para criar produtos úteis para um grupo de pessoas é necessário identificar e compreender essas pessoas. Ao envolver o usuário na avaliação das interfaces, é possível para entender melhor como ele elabora o seu modelo mental a respeito do sistema computacional. 

Nos métodos de observação com usuários deve-se limitar o número de participantes dos testes a cinco usuários de um mesmo perfil e usando um sistema em condições similares; esse valor foi definido considerando-se as recomendações propostas por Jakob Nielsen. De acordo com essas orientações, a coleta de dados com o primeiro usuário permite obter um terço das informações necessárias. Conforme o número de usuários aumenta, as informações coletadas começam a repetir e a coleta de novas informações diminui. Depois do quinto usuário, pouco se aprende de novo. De acordo com a pesquisa, cinco usuários são capazes de detectar 85% dos problemas de usabilidade.

Nos métodos de observação no contexto de uso a avaliação ocorre em locais conhecidos do usuário (casa, trabalho, escola). Essas observações permitem que o pesquisador observe os participantes em um ambiente familiar, ou seja, a interação acontece com as configurações de hardware e software já conhecidos. Porém, as interrupções que ocorrem por fatores externos ao processo de avaliação podem levar a falhas que não são conseqüências de problemas do software, mas causados pela interrupção da tarefa. Outra desvantagem é que número de pessoas que podem assistir ao teste pode ser reduzido, dependendo do espaço.

Nos métodos de observação em um contexto controlado a avaliação ocorre em ambientes monitorados, como laboratórios. Nessas observações, o pesquisador tem maior controle das variáveis que influenciam a avaliação, pode isolar o participante do mundo exterior e coletar dados mais precisos sobre diferentes usuários. Nesses testes pode-se preparar o ambiente de forma seja fácil gravar e registrar as interações e um maior número de pessoas pode assistir aos testes.

Nas sessões de avaliação, tanto no contexto de uso do usuário como em ambientes controlados, é importante ao pesquisador conhecer o conteúdo lógico e estratégico que levou o usuário a tomar uma decisão durante uma tarefa, seja por um erro ou um desvio. Para isso, é necessário que os participantes verbalizem seus pensamentos durante ou após a sessão de avaliação.  O pesquisador deve optar pela forma de verbalização mais adequada à sua pesquisa. 

A técnica de verbalização simultânea consiste em solicitar aos usuários para pensarem em voz alta enquanto usam a interface do sistema. Nesse tipo de verbalização, os usuários são estimulados a verbalizar seus pensamentos durante a execução das tarefas. Essa técnica desvia a atenção do usuário da execução da tarefa para a explicação da interação, o que pode sobrecarregar o usuário levando-o a cometer erros na interação. Por esse motivo, recomenda-se que essa técnica seja usada em tarefas fáceis e com pessoas que não se sintam incomodadas em externar seus pensamentos.

Na verbalização consecutiva, o usuário é questionado sobre suas ações após a execução das tarefas, em uma entrevista. Cabe ao pesquisador lembrar ao usuário como a interação e solicitar ao usuário que faça comentários sobre a situação. Essa solução aumenta o tempo dos testes, pois o pesquisador tem que relembrar ao usuário os acontecimentos. Além disso, pode ser que o usuário esqueça a origem ou causa do problema.

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